Man-Pai / Kanadehon Chushingura

Kanadehon Chushingura (O Tesouro dos Leais Vassalos: Um modelo a emular)

O contexto 

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Em 1701 o imperador Higashiyama (1675-1709) decidiu enviar uma mensagem ao shogun Tokugawa Tsunayoshi (1646-1709). Um dos dois nobres encarregues de receber e acompanhar o enviado imperial foi Asano Naganori, o senhor de Ako.

Asano era um jovem barão de uma área rural, nada familiarizado com a intricada etiqueta da corte imperial. Assim, procurou a ajuda de Kira Yoshinaka, um poderoso nobre e um importante vassalo da casa imperial, que era também um especialista na cerimónia da corte. Infelizmente Asano deixou Kira insatisfeito, ao não lhe oferecer um suborno suficiente, sob a forma de presentes extravagantes, como era então norma. Em consequência Kira provocou-o sem descanso, até Asano perder a compostura, desembainhar a espada e atacar o seu atormentador.

Fusatane: Chishingura - Acto 8 (1852)

Fusatane - Chushingura, Acto 8, 1852

Embora Kira tenha escapado apenas com feridas superficiais, o shogunato não podia ignorar uma conduta que violava vários preceitos legais, e condenou Asano à morte, ordenando-lhe que cometesse s, uma forma de suicídio reservada aos samurai em que a vítima se esventra. Depois da sua morte as terras de Asano foram confiscadas e os seus vassalos tornaram-se ronin, samurai sem senhor.

Quarenta e seis desses homens, liderados por Oishi Kuranosuke, principal conselheiro de Asano, juraram em conjunto vingar a desnecessária morte do seu senhor. Após prepararem cuidadosamente as sua acções, invandiram a mansão do responsável da morte do seu falecido senhor numa noite de neve em 30 de Janeiro de 1703.  Depos de ter recusado a oportunidade que lhe foi concedida de morrer por suas próprias mãos, Kira foi morto com a adaga utilizada por Asano para cometer seppuku, após o que foi decapitado. Na madrugada seguinte os vingadores entregaram-se aos sacerdotes de um templo budista e aguardaram o seu castigo.

Este incidente, que ficou conhecido como a vingança de Ako, despertou a tenção de todo o Japão. De facto as opiniões dividiram-se. Por um lado era necessário punir as acções dos quarenta e seis samurai, que não só tinham assassinado um importante membro da aristocracia, como tinham violado as severas leis que proibiam a colusão entre samurai, considerada sediciosa por natureza e severamente punida por lei. Por outro lado os motivos dos quarenta e seis conspiradores tinham a simpatia de muitos samurai, baseados que estavam na lealdade ao seu antigo senhor, pelo que eram considerados louváveis pela ética guerreira dominante.

Após longos debates, que incluíram várias consultas a sábios independentes, os quarenta e seis samurai foram condenados à morte por seppuku, uma morte honrosa, tendo assim o mesmo destino que o seu senhor. O local onde foram enterrados tornou-se rapidamente um local de peregrinação.

 

A vendetta serviu de base aquela que é, sem dúvida, a obra mais famosa e popular do teatro japonês, Kanadehon Chushingura (O Tesouro dos Leais Vassalos: Um modelo a emular), levado à cena pela primeira vez em 1748. A peça é também conhecida como Os 47 Ronin , uma vez que durante o enredo outro homem se junta aos originais 46 samurai.

Uma vez que estava em vigor na altura uma proibição à representação artística e à dramatização de acontecimentos contemporâneos e à utilização dos nomes de personagens reais, a versão teatral da vingança de Ako foi transferida para os dias do shogun Ashikaga Takauji (1308- 1358), o fundador do Shogunato Ashikaga Shogunate, e o local da acção passou de Edo para Kamakura. Do mesmo modo Asano tornou-se Enya, Kira tornou-se Moronao, e Oishi Kuranosuke passou a Oboshi Yuranosuke.

Chushingura raramente é representada na sua totalidade. Partes dos Actos I e II, bem como o Acto VIII, não são normalmente encenados, e muitas vezes apenas se representam actos isolados para salientar o papel de um actor específico. Chushingura tornou-se um tema imensamente popular junto dos artistas de gravuras ukiyo-e, e praticamente todos os principais artistas desenharam séries de gravuras com actores representando a peça ou com cenas desta.

 

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